segunda-feira, 12 de maio de 2014

SONETO PARA OS AMIGOS


SONETOS PARA OS AMIGOS

Encontrar-te aqui, acaso não pensado
Entre tantos que na NET tem abrigo
Surges tu meu velho e novo amigo
Como encontro do destino já marcado

É como se estivesses sempre ao meu lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como és para mim compreensivo comigo.

És um bicho igual a mim, pois és humano
És capaz de me irritar e comover
E sabes disfarçar se me levas ao engano.

Ser amigo é coisa que não se explica
Uma forma de num outro renascer
Não é o corpo, é a alma que se multiplica

sábado, 3 de maio de 2014

COMO SE PARTE DE IDADE

Como se Parte da Idade

Como se morre da Idade
Morre-se de acidente ou doença,
Morre-se com naturalidade
Triste é morrer de indiferença.·

Da indiferença se morre
Partir assim, é dor mais intensa
É dor que magoa e faz pobre
 Tu sabes Senhor, esta dor é imensa.

Na presença terra firme
Na ausência pantanal
Dá-me Senhor quem me anime
E olhe para mim como igual.

Livra-me Senhor, de Auroras
Tristes frias e sem esperança
 Nos dias em que as demoras
Retiram alegria e confiança.

Não quero vida amarga e triste
Mas sentir nos meus, Tua presença
Saber que com eles a vida existe
E não partirei de indiferença.

(Que eu possa dizer assim
Um dia na Tua presença
Chegou o dia do fim
Mas não parti de indiferença)


sexta-feira, 4 de abril de 2014

PERSEGUIÇÃO

PERSEGUIÇÃO

Tinha saído da escola mais tarde que o habitual, a mãe sempre recomendara:
- Logo que acabem as aulas tomas o autocarro e regressas.
 Mas o dia anterior tinha sido especial fizera anos e não resistira a mostrar às amigas o novo telemóvel, não se tinha apercebido do tempo passar, estava já a imaginar as palavras da mãe, ia imaginando as desculpas, afinal mesmo a pé da escola à casa não eram mais que vinte minutos, e parte do caminho seria feito na companhia de algumas colegas.
 Era Novembro o tempo estava mau, passava das dezoito e trinta e era bem escuro, para ainda complicar mais as coisas a iluminação pública estava desligada.
- Decerto por avaria: - murmurou.
A distância entre a escola e a rua principal foi passada entre risos e conversas, quando lá chegaram as amigas viraram à esquerda e ela em sentido contrário, seria cerca de quinhentos metros sozinha, apesar da escuridão queria não ter medo, ainda não tinha percorrido mais que algumas dezenas de metros quando viu aproximar-se um vulto de um homem numa rua que confluía para a principal, instintivamente colou-se à parede batendo sem querer com a mochila nesta, notando que lhe tinha caído qualquer coisa,
 -Um lápis: Pensou,
Mas não parou antes acelerou mais o passo, subitamente aos seus ouvidos chegou o ruído de um arfar de respiração e passos mais rápidos. Em pânico, não sabia o que fazer nem lhe saiam sons da garganta. Tentou ensaiar uma corrida mas as pernas não lhe obedeciam, ela podia escutar passos ainda mais apressados como que a responder à sua reacção e já não arfar mas autênticos rugidos, e aquilo que lhe pareceu uma ordem para parar.
O vulto, atrás ia balbuciando:
- Tenho que a apanhar antes de ela mudar de rua, se isso acontecer não sei como a identificar.
-Vou chamar por ela:-Decidiu:
Mas o caminho já andado e a aceleração daqueles últimos metros impediam-no de gritar, saiu um som frouxo e que ele duvidou que ela tivesse ouvido, tentou acelerar mais o passo, tinha mesmo que a apanhar.
O som que chegou aos ouvidos dela, parecia um miar de mocho, assustou-a mais, a noite parecia ter ganho cores ainda mais negras, as suas pernas apesar de jovens recusavam-se a andar, pelo menos a ela parecia-lhe isso, e no entanto sabia que bastava continuar a manter a distância durante mais alguns minutos e chegaria a casa, ao conforto da casa, ao abraço da mãe, pela cabeça passaram-lhe algumas orações da catequese, não sabia bem se as pensava correctamente, mas o tempo não era de preciosismo. Tinha dois desejos, chegar a casa e fugir daquele monstro. Um desejo trazia o outro.
Lá atrás o vulto fez mais uma tentativa de chegar perto do seu objectivo, acelerou o mais que pode o passo, chamou a si todas as energias disponíveis, e iniciou uma nova etapa em direcção ao alvo, sabia que se ela muda-se de direcção nunca mais lhe ponha os olhos em cima, tinha pouco mais de uma centena de metros antes do aparecimento de uma nova rua, no caso à esquerda se ela vira-se aí com a distância que levava perdê-la-ia de vista para sempre, com aquela escuridão dificilmente a conseguiria identificar, para a abordar mais tarde. A partir daí pensaria o que fazer.
Ela não se atrevia a olhar para trás a escuridão continuava e ninguém na rua, parecia que tudo estava contra, na rua do lado direito algumas casas mas mostrou-se incapaz de tocar numa campainha e pedir ajuda, a paralisação física parecia total, no lado esquerdo apenas um extenso matagal que naquela escuridão projectava sombras assustadoras o vento fazia agitar as folhas das árvores e arbustos fazendo-as semelhantes a horríveis monstros que só via na televisão, sim nos desenhos animados até era divertido, sentia no peito o bater rápido do coração, não conseguia perceber mas sabia que tinha medo muito medo.
Continuando a sua marcha no limite das suas forças o vulto ia planeando:
 -Ela leva trinta, quarenta metros à minha frente, se eu fizer uma corrida, em menos de um minuto apanhou-a e resolvo o problema antes que seja tarde demais, é a minha última tentativa, depois desisto.
Iniciou a corrida de forma desajeitada, não só pelo cansaço, mas também devido à sua estrutura física, um esforço final e apesar do seu muito querer ia ter que desistir.
Não foi logo que ela notou da corrida iniciada pelo perseguidor, porém logo que o fez, apoderou-se totalmente dela o pânico, trazendo a si toda a coragem que ainda restava ganhou forças e arrancou numa corrida a uma velocidade de que não se julgava capaz, rapidamente alcançou o limite da sua rua era aquela que sempre lhe parecia muito perto mas que agora estava a uma distância enorme, a rua continuava deserta a sua casa era logo das primeiras bastava tocar que aquela hora a mãe sabia que era ela e abriria o portão sem perguntar nada.
Ela era jovem e o monstro não, ganhou uma vantagem confortável colou a mão a campainha e não a tirou de lá enquanto a mãe não abriu, entrou de rompante batendo com estrondo o portão de entrada, correu para a porta traseira de casa como habitual, e finalmente libertando-se num choro nervoso e confusamente tentou contar o que se tinha passado.
Naquela hora um tio e um primo tinham passado em casa, deixaram-na acalmar e perceberam que um homem a tinha perseguido, enquanto vinha para casa e que tinha começado a correr atrás dela, mas ela conseguiu fugir.
Armaram-se cada qual com o seu pau e vieram ver se na rua estava alguém, espreitaram do lado de dentro do muro com cuidado de facto a escuridão não facilitava e eles não queriam acender a iluminação da casa para não o espantar, num primeiro olhar não viram ninguém, no entanto a jovem encheu-se de coragem e olhando bem ao longo da rua disse:
- É aquele que esta ali encostado ao muro ao fundo da rua, do lado direito.
 De facto ao fundo da rua via-se alguém que apoiava as mãos no muro e que parecia respirar com alguma dificuldade, como se tivesse feito um grande esforço e nesse momento estivesse a tentar recuperar.
Tio e sobrinho pegaram nos respectivos paus e deram uma corrida veloz em direcção ao homem, que continuava a arfar numa tentativa de normalizar a respiração.
Quando iniciou a corrida para se tentar aproximar da jovem o homem não contou com a reacção desta, mesmo assim não desistiu queria ao menos saber onde ela vivia, no entanto longe de diminuir, a distância foi aumentando tornando cada vez mais difícil cumprir sequer o mínimo que se propusera, saber onde ela vivia, não desistiu e correu até ao fim sabia que ela não o iria ouvir pois gritar e correr nas condições físicas e principalmente com o peso que tinha, não era fácil, bem sabia que precisava de exercício, mas não era aquela a ocasião para se lamentar, ou para fazer propósitos para o futuro. O que mais temia aconteceu, na primeira rua à esquerda ela virou e ele já levava um atraso considerável, só com sorte saberia qual era a casa onde ela entraria, tentou mais um pouco.Com esperança reflectiu.
-Talvez alguma iluminação durante a entrada, permita identificar onde ela mora.
 Por isso não desistiu, chegou ao limite da rua olhou e tudo deserto nada de iluminação nada de pessoas. Finalmente desistiu e permitiu-se um descanso apoiou os braços nas grades do muro e foi respirando apressadamente precisava de tempo para normalizar os batimentos do coração, precisava de tempo para normalizar a respiração, depois pensaria o que fazer, subitamente notou um alarido e os seus olhos e sentidos nem queriam acreditar sentiu o choque de uma vara a atingir-lhe as costas e a cabeça, sentiu uma forte pancada seguida de uma dor violenta junto a orelha o sangue a correr pelo pescoço e gola do casaco, instintivamente virou-se levantou os braços em protecção, com uma mão bem levantada segurando um objecto.
Quando se voltou, tio e sobrinho ficaram espantados, olhavam para a pessoa e nem queriam acreditar aquela pessoa a perseguir uma menina?
- O Senhor não tem vergonha: - Disseram.
- Vergonha! Vergonha! De quê? – Respondeu espantando e incrédulo
- Então a perseguir uma rapariga que podia ser sua neta? - Insistiram
- Perseguir uma rapariga? Eu? – Gritou desesperado 
- Eu queria era entregar-lhe este telemóvel que ela deixou cair à saída da rua da escola.
Abriu a mão mostrando o telemóvel novo oferecido nos anos, e que ele reparara que caíra quando a rapariga tinha tropeçado de encontro à parede.   




segunda-feira, 24 de março de 2014

CHOVE

           CHOVE

Chove o céu está cinzento
A chuva é contrária ao ser
Eu sinto no meu pensamento
Chuva intensa nele a escorrer

Vivo uma grande tristeza
Falo verdade ou minto?
Quero dizer com certeza
Aquilo que em mim sinto

Sei que verdadeiramente
Vivo entre o sonho e a ilusão
Mas quando a chuva cai levemente
Porque a Musa o consente

Encharca o meu coração

sexta-feira, 14 de março de 2014

SURREAL OU SONHO??

SURREAL OU SONHO
Sinto um murmúrio no espaço, que entra no meu pensamento, pensamento ou sonho?
Sem falar interrogo? – Porque estas aqui?
Uma força empurra-me para fora de mim. De quem é este corpo que tenta libertar-se do caixilho onde o emolduraram?
– Mas será caixilho ou cama. – Indago
-Sou eu? Pergunto-me
- Porque me sinto preso e liberto?
Espanto-me!!
Avisto-a e avisto os raios de luz que me indicam a sua presença.
Tão sedutora como uma maça, tão miragem como um fogo-fátuo.
Estendo o braço, que não me obedece.
-Que vivo eu?
Tento alcançar a maça?
Porque sinto uma impossível presença?
Eu sei que será sempre inatingível, não sei se ela o sabe, mesmo assim digo.
 – Deixa-me surrealizar o meu sonho.
-Surrealiza-me.
Respondem: Ela a maça ou o sonho?
Acordo, não sei.


quarta-feira, 12 de março de 2014

TU SABES..

TU SABES

À vezes se te lembras procurava-te
Detinha-me em ti, esgotava-me e perdia-me
Sabia que haver-te perdido era encontrar-te
E nessa dança de viver me comprazia

Não percebendo no fundo que dizer-te
A distância de tempo e de espaço não existia
Indispensável era ter-te para perder-te
Num ciclo que se repetia dia a dia

Era tudo tão complexamente natural
Vivia das tuas palavras e da tua imagem
Sem saber como chegou um dia fatal
Que em mim te imortalizaste como miragem

É com espanto que ao espelho me olho
Espantado diviso-te naquilo que me restas
Acredita o que faço, não sou eu que escolho
Sei no caminho, não faço parte das tuas metas.



segunda-feira, 10 de março de 2014

A IGREJA DO CONVENTO

A IGREJA DO CONVENTO

A meio da encosta verde, de frente para o vale do Cávado o contraste entre a natureza e o construído pelo homem ainda é mais evidente. O Mosteiro de Mire de Tibães é presença assídua na minha vida quotidiana, não porque lá vá todos os dias, mas todos os dias os meus olhos o encontram. Ao longe ao entardecer ainda me parece mais solene e é possível sentir o silêncio em oração dos monges que o construíram e habitaram. A sua localização incentiva a diversas contemplações. Uma virada para o exterior, a partir das varandas e janelas a paisagem a perder de vista ao longe montes e colinas e bem mais perto um rio “ O Cávado” na sua incessante busca do mar, e claro a paisagem já moldada pelo homem, de que se destacam como marcas de fé, algumas torres de Igrejas de terras vizinhas. Mas também uma contemplação virada para o interior do Mosteiro, os seus amplos corredores, que no seu silêncio convidam a um olhar interior, os claustros que nos seus já incompletos azulejos, vão narrando uma história exortando cada um, nas suas circunstancias a uma imitação de vida. Os jardins e a mata, natureza construída pelo homem facilitadora da busca do infinito, como se ao intervir assim na natureza, os monges quisessem construir uma réplica do Paraíso.
Como corolário a Igreja construída num tempo em que a pressa não estava presente, o prazo era ditado pelos meios existentes e muitas vezes pela generosidade de todo um povo, os prazos das obras não estavam ligadas à necessidade do poder. Provavelmente a própria construção Igreja foi tempo de oração permanente, dando forma ao lema dos monges que habitaram o Mosteiro, “ Oração e Trabalho”. Esse tempo sem pressa concretizou-se na elaboração de um embelezamento interior que mesmo agora nos fascina. Todo o interior da Igreja nos prende o olhar desde o Altar- Mor aos altares laterais, é impossível ficar indiferente. E é também por essa exuberante arte que somos, convidados a contemplação se os olhos ficam como parados o espírito abre-se e sente.
Não sou especialista como é visível na discrição muito resumida que faço deste autêntico hino à arte humana impregnada de Fé, outros farão isso com mais qualidade técnica e histórica, mas o que me levou a escrever este texto, foi uma data que me parece ter passado quase despercebida.
À entrada da Igreja do lado esquerdo esta colocada uma lápide que diz a seguinte frase, que escrevo a seguir de memória.
“ Principiou-se este templo no Ano de 1628 e acabou-se no Ano de 1661”.
Este ano depois de cerca de 33 anos de construção, a Igreja do Mosteiro, corpo essencial de todo o Mosteiro faz ou já fez 450 anos de existência, 450 anos talvez merecesse alguma lembrança especial, no entanto não me lembro de grandes referências a este acontecimento. Presença constante na nossa vida de todos os dias a Igreja do Mosteiro de Mire de Tibães, foi pouco lembrada nesta data por todos nós, tão preocupados com a crise que nos corrói e desune, e tão pouco atentos a símbolos que fazem parte da nossa identidade e podem contribuir para cimentar a unidade necessária que precisamos de ter